DANÇA:
POÉTICA E METAFÍSICA
O maior apetite do homem é desejar
ser. Se os olhos veem com amor o que não é, tem ser.
Manoel de
Barros.
AQUECIMENTO
As considerações a seguir não pretendem buscar e propor um novo ponto de
vista para a arte, para a dança, para o corpo, para a realidade e, desse modo,
uma nova conformação de toda sua dinâmica – inacabada e inacabável – a um
conceito, a uma ideia, a uma fórmula, a um regimento. Ao partir das provocações
do pensamento filosófico de Martin Heidegger (crítico, ele mesmo, da história
da filosofia), este texto se ocupará, sim, de desconstruir a compreensão do
real na relação sujeito-objeto, isto é, como visão-de-mundo, modo de ver.
Trata-se do desafio de lançar-se (lançar a ver, o corpo, a arte) justamente no
que, no e do real, não é visível, mas
acontece. No que não é claro, não
depende de clareza, esclarecimento, para ser. No que não nasce objetivo, diante de (para) um sujeito e, logo, apartado dele.
Não podendo se pôr fora do que vem a ser, e deixa de ser, o chamado corpo compreenderá
tudo isto que, por enquanto, é – o provisório limite do que veio (à luz!) e já foi. Outrossim, isto que, ausentando-se (já passado? ainda futuro?
Desaparecido! Não aparecente!), dá propriamente o presente: se dá de presente.
De tal maneira que presença coincida
com o corpo enquanto tal: o por entre ausência(s).
Antes de vermos outro corpo, ao vermos outro, trazendo-o para nós,
mediando-o, representando-o, nele já estamos, nele primeiramente viemos a ser o
que somos, nele deixamos de de ser o que éramos. Somos, por excelência, no que,
no outro, também não está dado: o outro será,
também, só em nós. No
encontro. O outro, assim, o que sempre
será: nunca o que é. O outro do outro somos nós enquanto sua alteração, do
mesmo modo que nós nada somos senão no instante e o instante de toda esta
alteridade.
Como, então, pré-ver outra coisa,
o outro da coisa, identificar a
diferença, indiferenciá-la, idealizá-la, torná-la um igual? Como pré-ver uma vista de um ponto e um ponto de vista, se quem vê e se o visto
não se pré-supõem, não estão dados a
priori, nem a posteriori? O que
os prima, priva, os posta? O que os supõe, os arruma, os suportar, os dá, os
torna próprios, ou melhor, os
re-tira, os abisma, os desarruma, os transpõe, os con-funde, os deixa propriamente in-suportáveis?
Ao aceitarmos um diálogo com o pensamento de Martin Heidegger, filósofo
alemão do século XX, desejamos, enfim, morar no que se antecipa e possibilita a
experiência de ver e de pensar. Na experiência da experiência. Na experiência
de ser – anterior e ulterior a qualquer subjetivação, objetivação, razão – na qual se dará a arte. A dança.
Falando não mais sobre o corpo, mas sempre no corpo, partindo do corpo,
chegando a corpo, sempre sendo o corpo falando e falante, sempre sendo fala
porque e enquanto incorporação, sempre sendo incorporação porque e enquanto abertura,
esvaziamento, pensamento. Isto, o pensamento: o ser em dança. O pensamento dança!
Heidegger compreenderá o pensar como tal re-velação do ser, da realidade, como
o corpo em obra; como o corpo que se desvela no mesmo instante em que se vela,
e que se vela no mesmo instante em que se desvela. O pensar como tal suspensão
do ser. Desse modo, rogará o pensador que vida – corpo – não mais se reduza, se
conforme a um ente. Se ele, suspenso,
na tensão de ser e nada. Aí, a a arte não mais raciocinada, também entificada. Aí, ou melhor, aqui, a dança
dança.
EXTENSÃO E FLEXÃO
No século XX, o pensamento de Martin Heidegger vem por em questão todo um
Ocidente que, após seu desencantamento religioso,
foi e ainda é dominado pela ciência e pela técnica. Tentando tudo
disponibilizar para o homem, o pensamento tecnocientífico acabou e acaba por explorar
e esgotar a natureza, a realidade (por reduzir o real a um dado, coisa dada, ou seja,
particípio passado, partícipe do passado: sem futuro, sem chance de ser coisa por dar-se, jamais coisa-objeto, no e
com o objetivo, sempre, a rigor, dos sujeitos).
Se a ciência, assim, se pré-ocupa com o fundamento do aí-dado, com a medida – a ratio,
a razão – de onde tudo parte e para onde tudo se direciona, a técnica constitui
o meio consagrador de tal empreendimento: o operador das causas e dos efeitos;
a sustentabilidade ou a garantia da eficácia e eficiência desta máquina do mundo. A técnica moderna,
enfim, como o know how, a
instrumentalidade, o método para que coisa
dada chegue a uma dada coisa:
ponte para a reprodução delas, para sua repetição, redundância, igualdade,
igualação. Daí, a chamada coisificação do real na filosofia, uma vez que leis,
modelos, suportes enquadram, conformam, dão forma, fôrma, delimitação,
definição, ou seja, fim às possibilidades de ser, que dizem a realidade para
aquém e para além das suas causas e finalidades.
Neste sentido, como parte também desse real limitado, de um todo obtido pela soma ou coesão de cada
uma de suas partes (não fossem elas, antes de partes de, primeiramente cada
uma que vem a ser e deixar de ser, isto é, que é no aberto, parte ou partícipe do nada, presenças do que era e
será ausente, antes de ser para ou por causa de outra coisa maior, já nem mais coisa,
porque acima de todas: pura, idealizada!), o homem passa também a coisa, a mais
um objeto para o sujeito no qual se transformou. O homem, sujeito e objeto de
si mesmo; o homem, então, a manipular, controlar, explorar, esquematizar,
rotular, estereotipar o humano e tudo o mais que participe de sua sujeição, que
se ofereça à sua razão, que caiba nela. Tudo perdido. Para a razão humana. Aí,
a aposta, cega, na abstração, no colocar-se para fora ou acima do corpo, fora
do que concretamente é con-fuso, e esclarecer-se, e entender que se pode chegar
a uma luz isolando-a da sombra.
Desse modo, na prévia divisão do real em partes, ou melhor, em metades –
como ideia e coisa, espírito e carne (platonismo), matéria e forma
(aristotelismo) e suas derivações (significado e significado, essência e
aparência, sujeito e predicado, fundo e superfície), o que está em questão, no
pensamento do real, do corpo, da arte, da linguagem, é o esquecimento do ser. O
esquecimento do nada como o que impede a predicação do real, do corpo, da arte.
O que impede de pré-dizer tudo o que não se esgota no já-dado, no passado e,
portanto, suplanta todo adjetivo. O que impede de tornar tudo o que seja um
adjeto. Por exemplo: falamos em mundo sensível e mundo inteligível (pensamos logo
pela contraposição adjetiva) sem, primeiramente, substantivamente, pensar o que
no mundo é mundo. Que o substantivo é só no verbo, na ação, das ações: se o
substantivo ou sujeito aciona, já foi acionado. O (vir a) ser é que substantiva, portanto, mas na lógica da
gramática (que se fez a partir da gramática da Lógica), passou a mera verbo de
ligação, de mediação para o sujeito chegar aos seus predicados e vice-versa
(como se a ação pertencesse ao sujeito, antes de pertencer a tudo que, em ação,
age, co-age, co-move, move). Quando se objetiva mundo, ele, portanto, supõe-se
fora da ação do humano, fora do corpo – onde e quando o i-mundo (o caos) propriamente é (cosmo: limite: corpo: presença:
linguagem). A razão inventa, assim, de um lado, o mundo subjetivo (o homem e o
por debaixo das coisas, o subjacente) e, de outro, o mundo tal como o
entendemos vulgarmente: o objetivo, o dos objetos, aquele já representado e no
qual nos representamos.
Porquanto a experiência do nada não é ponto de vista, não cabe em teoria
(não é possível ter um conceito do nada, ver o nada – nele sempre estamos, na
abertura, no deslimite, na superação do limite, do ente, do mesmo modo que
estamos sempre partindo do silêncio e chegando a ele), tal pensamento não é
privilégio da filosofia; não é descoberta ou novidade teórica. Pelo contrário,
a filosofia, desprivilegiando o nada na maior parte da História do Ocidente, acabou
por desprivilegiar a experiência de seu pensamento, a qual é, a rigor, a poética: a do poético – na dança, na música,
nas artes etc. O poético como a própria manifestação do divino (disto que, do
nada, vem!). Não o sagrado, ainda, compreendido religiosamente,
entitativamente: não se trata, pois, de substituir os fundamentos por outros. A
razão por Deus. A ciência pela religião, se, ambas, obra de uma filosofia
perdida de sua própria irmã ou mãe: a poesia, a experiência-força do que vem,
se dá, se cria, nos cria e no faz criar.
Neste sentido, por exemplo, Guimarães Rosa, escritor brasileiro, não
precisa pensar tudo isso na medida em que tenha lido Heidegger, por exemplo, mas
porque, acatando o ser de toda humanidade, abrindo-se ao poético da própria
vida, abrindo à vida, ele pensa – todos nós pensamos nisso, a partir disso, mesmo que não saibamos, e na medida em que
não saber é outro modo de também dizer isso,
ser dito (não dito!) por isso. No conto “O Espelho”, Rosa escreve: “Quando nada
acontece, há um milagre que não estamos vendo”. De tal modo fechado ao milagre (aqui, antes da acepção
religiosa, o próprio vir a ser do antes não vigente, jamais visto, jamais
pré-visto), o homem não pode mais simplesmente ser. Ele tão-somente será
por causa de (outro ser, também dado, coisificado), ou a fim de (mais um ser,
dado também). Ou para (para um ser prescrito). Resta-lhe viver (e de fazer
arte) como tal cumprimento de porquês, finalidades, objetivos, causas.
Este, o adendo de Heidegger: antes de utensílios (para, porque...), nós somos. E é só na dignidade do que
primeiramente está sendo, quer dizer, sendo livremente, anterior e ulterior a
todos modos de justificar e de encaminhar a ação, de depender de outra, para
agir (de determinar para onde algo ou alguém tem de ir e como tem de
ir; qual o modo correto, adequado, verdadeiro de ir, para chegar) que podemos forjar toda utilidade,
pragmática e funcionalidade. Segundo Heidegger, a base desse pensamento estaria
em Aristóteles – na sua compreensão das coisas-utensílios, aplicada, posteriormente,
às teorias da arte e também à filosofia e ciência da linguagem (Linguística,
Semiótica, Semiologia). Cria, na correlação arte e utensílio, a pergunta: qual
a utilidade da poesia, da dança, da música? E, quando para além de todo útil, e
ajuizada inútil, a arte, ela se responde, é obrigada a responder uma questão,
na verdade, nunca proveniente dela, proferida por ela.
A criança que, ainda não adestrada, simplesmente está sendo, ou seja, aberta a, aberta ao aberto, na experiência, por
descobertas, não sossega: não pára quieta, sentada, numa cadeira. Pula. Faz arte:
passa por debaixo, por entre os vãos. Brinca. Tira a cadeira do lugar, do seu
lugar, ou função. Dá-lhe um novo lugar. Um espaço-tempo outro. Devolve,
portanto, a cadeira à sua potência de ser: deixa que corpo-cadeira propriamente
apareça, e que apareça como corpo-com, corpo-com-outro; deixa que o
corpo-criança seja com-o-corpo-cadeira, antes de ambos condenados a uma ideia, fundamento.
A cadeira, se serve de assento, só podemos usá-la, nela sentarmos, porque primeiramente
ela é e, sendo, resguarda a potência
do ser, mesmo que lhe prediquemos uma função: como corpo, cadeira, e criança, a criança da cadeira é possibilidade de
vir a ser, deixar de ser, estar em
arte. A criança, aí, muito arteira! Não à toa, cheio de infância, Alberto Caeiro, poeta (e um
dos heterônimos de Fernando Pessoa, crítico da metafísica ocidental antes mesmo
de Heidegger), escreveu: “As coisas não tem significação, tem existência!”; “O
que nós vemos das coisas são as coisas. / Mas isso (tristes de nós que trazemos
a alma vestida! (...)/ exige (...) uma aprendizagem do desaprender”. E em outro
momento: “Criança desconhecida e suja brincando à minha porta / Não te pergunto
se me trazes um recado dos símbolos. / Aprecio a tua presença só com os olhos”.
Mas “não basta abrir a janela para ver os campos e o rio. / É preciso não ter
filosofia nenhuma. / Com filosofia, não há árvores: há ideias apenas”. Quer
dizer: não basta ir a um espetáculo de dança, para ver a dança, compreender a dança como e desde um ponto de vista,
teoria, filosofia, razão, juízo. Enquanto perdurar na ideia, ou numa
proposição, tudo deixa de ter existência concreta para redundar na objetivação
e na subjetivação, no significado (fixo) ou na significação (subjetiva), ou
seja, na escrita (lógica) do que não é escrita.
Na criança do pensar, no seu princípio, o sentido: o poético de todo
corpo. Na infância de um poema, de uma escrita literária, o sentido – poético –
como corpo e não no signo linguístico. O poético não é o sentido figurado (versus o sentido literal). Aí, mais uma
vez, a noção de sentido pensado a partir de adjetivos: literal (o significado
subjacente, ao pé da letra) e o figurado (o significado por alguém, o
ressignificado pelo que está fora da letra). Aplicando tal raciocínio ao corpo,
entendemos que não podemos ficar ao pé dele, confirar no que ele aparenta,
porque, afinal, para além dele é que está o sentido – corpo é, dança é apenas
metade do que falta: a ideia, o inteligível, o conceito. Desse modo, reitera-se
o simbólico, o indicial, o icônico como a co-dependência de uma coisa a uma
outra que, não estando nela, é necessária para regê-la e tê-la por completa. No
entanto, corpo não é metade de. Toda metade, na sua relatividade, é que nunca
deixa de ser um corpo. Daí que sentido e semântica não sejam a mesma coisa. No
diálogo com o corpo, imediatamente mediamos (semantizamos! raciocinamos!),
quando, por princípio, o imediato nunca é o mediato, o raciocínio, a sua
divisão em fundo e forma, mas o que já fez corpo, já se apresentou no nosso,
incorporou, comoveu, aconteceu, fez sentido!
Desse modo, dança precisa fazer sentido e não, semântica. Parafraseando Caeiro,
dança tem existência e, não, significação. Está já não é a dança, a arte, mas
toda ciência; quiçá, religião; enfim, toda sistemática ou doutrina posterior (e
diverso do que justamente transgride o corpo como sistema, viola suas doutrinas
ou leis: o põem na super-ação que a dança é).
O aprendizado da razão, da escrita da ação, do código de conduta, do
pensar, ou seja, a restrição das possibilidades deste para a afirmação de um autorizado, de algum que – regendo os
demais – firme um acordo identitário, comunicativo, de semelhanças, é, por tudo
o que dissemos, uma possibilidade. Necessidade, apenas, quando um mundo se
objetiva e, desse modo, precisa tudo objetivar para se manter. As
possibilidades não autorizadas, no entanto, permanecem latentes em tudo que se
faz, se fez, se pré-determinou. Dar-lhes vazão é, na desinvenção do
constituído, na desinvenção do raciocinado, da análise, dos modos de enquadrar a obra vista e a quem a vê, a invenção de
outro real – uma poética: “Tudo que não invento é falso”, dirá outro poeta,
Manoel de Barros, em seu Livro sobre nada. O inventado para mim (a lei, a razão, os meios, os
suportes, os instrumentos, os códigos, a moral, tudo isto em que tenho de me
enquadrar, obedecer) é falso, não é a verdade do meu corpo. A verdade dele é
sua revelação, sua concriatividade ou demanda própria.
Obrigatório mesmo, essencial, é ser. Por quê? Porque estamos vivos, e
estamos vivos antes de todo porquê. Não sabemos por que estamos vivos, mas
estamos antes de perguntar por isso! Não decidimos nascer, viver! Fomos e somos
lançados na vida (quando vimos, já estávamos vivendo, isto é, morrendo). Logo,
obrigatório, essencial, é ser porque obrigatório é morrer e, sendo obrigatória
a morte, eis a vida se vivendo, se
(re)inventando, essencial. A arte, em correspondência a esse apelo, não tem
porquê, senão corresponder à afirmação da vida em meio à morte, ou melhor, ao
fazer surgir o inesperado em meio ao esperado, o extra-ordinário: nela, o real
(a vida) vem a ser sempre mais do que o fim que se lhe destina, a morte que
interrompe todo devir e que, aqui-agora, nos convoca a ultrapassá-la
(ultrapassar o fim, o limite) em vida (comemorando-a infinita). Quando infinitos, os corpos finitos – aí
se tem o poético! Mas, na medida em que vida se coisifica, que a recebemos
pronta (e, por isso, conforme Manoel de Barros, falsa), já semantizada (ficcionada) por normas ou normalidades,
toda transgressão do normativo, do normal, da semântica dada, será anormal,
sem sentido. Inaceitável. Será, às avessas, o considerado errado, mentiroso. Um
distúrbio. Doença. Loucura. Sonho. Fora do eixo,
um marginal. O mau! O errado! O
pecador! O irracional! O sem juízo! Aí, a arte!?
A poesia (em sentido amplo, originário, e não ainda como gênero literário,
como propriedade da escrita)
consiste, em Heidegger, como a saída para a libertação de cada ente (coisa,
corpo), porquanto o devolve ao ser, se lhe abre. Heidegger mora nesta compreensão
primigênia de que o poético é o vigorar, o pulsar, o irradiar de todo ser e não
ser: a realidade, por excelência, como (des)construção poética. O poético nomeia,
no grego, tal fenômeno sempre permanente, atual, aqui-agora. Não deflagra o
originário como origem num passado, não é princípio dado como começo, base de,
causa de, mas a imediata irrupção do imprevisível – quando e onde o abismo é,
ou seja, ganha margem, limite de, limite para o seu sem fundo. O jamais antes
visto, dado e, que por isso, é novo, sempre diferente, poético, pode ou não – a
partir de sua unidade, de seu pôr-se – caber no representativo, numa relação,
numa comparação, num artifício sistemático ou operativo. Mas o presentativo é
sempre único, incomparável, irrepetível. Lancemos mão de um exemplo: se eu
perco a mão direta, não deixo de ter a esquerda. O direito e esquerdo são
relativos, mas a mão não deixa de ser mão, não deixa de guardar em si a
potência de super-ação (poesia) do corpo. Por isso, podemos jogar, dançar,
viver com uma mão, com um pé, sem os outros. Podemos atualizar sua potência de
muitos modos. Podemos falar, inclusive, em uma dança que pense focando o lado
direito do cérebro, o lado esquerdo... Porque já não são lados, não direito e
esquerdo, são lugares de potência e realização própria. No um, o infinito. Cada uno é autopoético antes de dependente de algo
que, sendo-lhe metade necessária, impeça e determine o seu devir.
Com isso, Heidegger não pretende um conceito, um ponto de vista seu, uma
teoria para o poético, para a vigência criativa do uno/ do corpo (sua síntese):
atentando para o prévio às representações, às teorizações, às filosofias,
coincide com o a motivação da e para haver a cultura como colheita (o sentido),
sempre singular, a cada vez que a natureza/terra/ser se mostra. Na medida em
que nossa cultura é, uma vez dita Ocidental, de matriz grego, Heidegger vai ao
encontro da palavra que salvaguarda a questão da criação desde o princípio
(ainda que, ao longo dos tempos, assuma vários significados, e vários significantes,
dizendo-se em várias línguas o mesmo):
poesia.
Como correspondência às questões, acatamento do apelo do ser, do ser-com,
ser natureza, nata, nada, a cultura
se funda; quer dizer: o poético, a arte (dança, música, canto) funda a cultura!
Constituem originariamente a experiência de memória, do fazer história, da
perpetuação do diálogo, da mudança com. Não explicam, não reduzem o real:
deixam-no aparecer, no corpo, como corpo inesgotável. Aí, sim, encontram seu
princípio: o in-finito, a abertura, o ainda não, o já não mais. Antes de
objetarmos uma obra de arte (antes de entendermos obra como objeto, algo já
construído, que contém um conteúdo,
uma ideia, uma poesia dentro dela...!),
antes de compreender a arte dentro da
cultura (e de entender a cultura como sistema do qual a arte, entre outras
representações, se opera), o poético-mítico, o artístico funda a cultura, a colheita do que vingou, do que veio à luz, à
tona, fez sentido, deixou que o velamento (i.mundície)
da terra desvelasse mundo(s). Não fechar a arte dentro de uma cultura
significa, de tal modo, não fechar a própria cultura, ou seja, impedir sua
delimitação, abstração, paralisia de seu movimento e processualidade. A arte dá
a chance de o homem, atendendo ao ser que o chama (que o chama a vir a ser,
deixar de ser), não se restringir a uma identidade cultural, a uma ideia
coletiva, a um modelo de todos, para todos. Dar-lhe o direito à diferença concreta (a que não cabe numa ideia, ou
seja, que não pode ser identificada, proposta como: “Diferença é...”, “Esta
arte é...”). Abstrair o diferente significaria indiferenciá-lo, torná-lo forma
sem matéria. Desmaterializado, não tem nem é mais corpo.
Destarte, não se trata, aqui, de questionar nossa época atual e voltar a
uma outra, substituir um sistema por outro (pelo dos gregos, por exemplo!), mas
entender que, em questão, no pensamento da origem, está a origem do pensamento.
Não apenas do pensamento da cultura, mas do pensamento como pensamento (quando
o homem está ao encontro de si, quando o homem não se encontra, não se acha,
perdido está na procura, procurado por, suspenso, pensum; enfim: em pensamento). Pensar, de acordo com Heidegger, diz
deste deixar o real se mostrar, deste deixar o corpo se mostrar, a vida se
mostrar com isto que está sempre suspendido. No abismo. Quer dizer: mostrar o
real como o que não se mostra completamente. Cuidar das aberturas do real.
Morar no que, na abertura, perfaz, desfaz, refaz limite (corpo): a linguagem. A
morada do humano.
O princípio, o príncipe, o principal, o primeiro é sempre o que está à
frente, nunca atrás, no passado. Dialogar com os gregos consiste em dialogar
com as questões que permanecem e, logo, não podem retornar, não podemos
retornar a elas, estão sempre por vir, a nos desafiar. As questões de todas as
épocas, e que gerarão as diferentes épocas quando respondidas a partir de
determinados conceitos, fazendo com que tudo – o corpo e a arte – se subordine
aos mesmos e, assim, toda teoria da arte e história da arte se configure. Dialogar
com os mitos gregos, outrossim, com o pensamento poético grego, com o
pensamento anterior ao platonismo e ao aristotelismo é, em Heidegger, a chance
de libertar o corpo, o ser das armaduras entitativas, das ideias, das
essências, das proposições lógicas, das bases do império da ciência e da
técnica na modernidade, perpetuadas, segundo ele, na arte, com o nome de
Estética. A chance, afinal, de libertar o corpo, o ser, o real do julgo
objetivo e subjetivo. Do humanismo. No autocentramento do homem, agente
controlador do real, seu conversor em objeto. Aí, está – justamente – o sentido de
pensar como diferente de raciocinar. O pensar como instante, hora, lugar,
cuidado do ser – onde e quando ele se espessa, se adensa, se compacta, se
compactua, corporifica e, portanto, é experienciado. O pensar como o cuidado de
tudo isto que nos permite ser o ser e não
ser que somos. Isto que mora na linguagem – a força na qual ou através da
qual o que é pode propriamente ser. A força na qual e através da qual o ser está, tem estada: morada: é corpo!
A dança é pensamento porque, na experiência da experiência, no pensamento
como experiência, cuidado do real, morada na linguagem, roga e cumpre a possibilidade
de realização e realização das possibilidades. Dançando, musicando, poetando, os
corpos nem por isso deixavam de pensar (talvez, pensem até melhor, porque dão
ao real mobilidade, dão ao corpo o que é do corpo). Todavia, educaram-nos a
acreditar que arte e pensamento são coisas estanques e, porque pré-definido o
lugar da arte como o contrário da razão na dicotomia da cultura (mundo sensível
x mundo inteligível) e, sobretudo, porque pré-definida a razão como sinônimo de
pensamento, então, para dançarmos ou ao dançarmos, por exemplo, temos de ter a
razão. A razão da dança. A razão do corpo. A estética: lógica ou ciência do sensível. Temos de lançar, portanto,
aí, mão de uma escrita que linearize, esclareça, uniformize, tire o próprio
corpo da sua confusão ou caos, tire o corpo do corpo, para caber numa forma,
num sinal, gráfico, num signo, num símbolo, numa simbologia ou teoria. Para que
dança, por sua vez, caiba numa generalidade, num gênero. Que se dance só a
partir de gêneros de dança, não fosse possível uma dança própria e não tivesse
sido, toda dança genérica, específica, pela primeira vez. E como se, mesmo ao
dançarmos um gênero, a vez não continuasse sempre primeira.
Em outras palavras, parece-nos legítimo o dançar (científico? pensável?)
somente quando escrito – quando escrito em
outras palavras! Mas o corpo é palavra: diz. A um só tempo, ouvindo-o,
tentamos traduzir – com escrita, com linearidade – o sem corpo, o não linear.
Por isso, tudo o que, na linguagem, toca o não escritível da experiência tem de, paradoxalmente, ser escrito para
ser relevado (mas não necessariamente
revelado). Pudéssemos realmente
revelar uma experiência escrevendo-a depois!
Ou antes! Não! Antes, uma. Depois, já é, será outra, a experiência.
Aquela, passada, não pode ser escrita. Nem a futura, prescrita. A sua fala, o
seu dizer, o seu modo de dizer era, e é, e será aquele acontecimento: em devir:
em dança: a dança presente. Se, em
alguma medida, temos, então, de escrever o que, na escrita, na crítica, na
interpretação persevera co-movente, corpo, aberto, dançante, cheio de silêncios
e aberturas, não analisemos, não tornemos o corpo um objeto na dança da
crítica. Intentemos uma escrita poética.
Mesmo na crítica literária, Baudelaire, poeta questionador do seu tempo, já
havia dito: “Eu creio sinceramente que a melhor crítica é a que é divertida e
poética; não aquela, fria e algébrica, que, com o pretexto de tudo explicar,
não sente nem ódio nem amor, e se despoja voluntariamente de qualquer espécie
de temperamento; Dessa forma, a melhor análise de um quadro poderá ser um
soneto ou uma elegia”. Apenas poetizando a escrita, a palavra fará com que os
significados deslizem, para que não caiam no esquematismo analítico, o qual,
mesmo admitindo não passar de uma significação possível, entre outras, emite um
juízo, propõe logicamente uma obra.
Que seja a crítica da dança, desse modo, dança na crítica, dança na
palavra, dança com as palavras, a dança da palavra. Apenas aí a justeza do
encontro. Quando, na palavra do corpo, seja corpo a palavra; não signo,
representação, sinal, lembrança de, faz de conta que, simulação de, suposição de
que, em relação a, mas presença,
apresentação e memória de uma já outra e nova experiência – concreta – a partir
da outra. Princípio de. Princípios. Manuel de Barros, novamente, traria um
verso-luz: “Uma palavra tirou o roupão para mim. Ela deseja que eu a seja”. Ou
ainda:
A
ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
Mas
não pode medir seus encantos.
A
ciência não pode calcular quantos cavalos de força
Existem
Nos
encantos de um sabiá.
Quem
acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare.
Os
sabiás divinam.
Os corpos divinam: vêm a ser. Desvelam-se!
Desencobrem-se! Descobrem-se! Antes de toda explicação, a unidade disto em que
tudo se con-funde: um corpo. Se não o separamos em som e silêncio, luz e
sombra, sentido e vertigem, superfície e fundo, para que ela seja. Ele é. Para podermos separar, dividir. Na separação, ele já foi. Nem mais é: se perdeu. Falar dele,
sobre ele? Como? Por quê? Apenas falar nele, falar a partir dele, falar a
partir do novo corpo – escuta, visão, palavra, sentido por vir. A mediação não
é o passo primeiro do dizer, do pensar. O pensar, primeiramente, escuta, acata
isto que se diz, já se disse e, como tal, é (nossa) imediação. O imediatamente dito-ouvido em nós. Uma presença, um. Sempre um – i.mensamente, sem
medida, sem tamanho, aberto. Daí, o conceito diz justamente o que, na história
de nosso pensamento, consiste no tamanho, na medida, na forma de toda matéria, no
etéreo, na abstração, no supra-sensível, no que não está mais ou ainda não em
ação (em corpo!), porquanto se lhe antecipa para poder causá-la, causar a ação,
ou justificar uma ação já acabada, fechá-la.
O conceito, portanto, é a não ação! O conceito não dança! Mas o permitimos
comandar a dança!? A dança subserviente a um conceito (!) acaba justamente com
a potência de dançar o ser que não se esgotaria naquela ideia, forma (e, que
também, não pretenderia chegar a outra, mas sempre ao princípio: ser – outra!).
O ser, portanto, como traço do sujeito, que o expressa (expressa uma
ideia) e o representa (representa ideias do sujeito), que o predica. A arte, a
dança, tudo, no Ocidente metafísico, assim, compreendido: tudo precisa chegar
ao sujeito, à subjetividade, partindo do sujeito, da subjetividade através de
predicados, objetivações: cultura, época, história (outros substantivos também
pré-definidos, objetivados por atributos, adjetivações). O corpo como o menos
importante, servo do mais importante – que já não é ele mesmo, porque ele mesmo
é só ad-jetivo de toda substantivo ou substância: o eu, a essência, a alma, a
mente, o deus etc.). Mas como o predica e se predica se não sabemos onde e
quando termina, e quando e onde começa? Onde e quando termina sua história, a
memória, uma experiência?
Tentemos fazer uma genealogia (buscar nossos pais, e depois os avós e demais
ascendências infinitamente; e buscar também amigos; os inimigos; todos os
interlocutores; mas também considerar aqueles que não conhecemos, porque o
desconhecido, não tendo vindo ao encontro, também fez com que fôssemos o que,
até aqui, somos) e não conseguiremos esgotar a experiência do que se é. Deste
presença, da presença. É precisamente isto que a faz rica, inesgotável e, por
isso, com este seu aqui-agora ínfimo e infinito podemos dialogar, podemos
trazer à superfície, ao corpo, toda sua infinidade. Desse modo, dançamos. Sem
mapa, sem suporte, sem muleta, o corpo, no labirinto de si mesmo – que é o
próprio viver-morrer. Os múltiplos caminhos entre vida e morte serão e são a
criação e descrição desse corpo e de tudo mais que, dele participando, e não, o
incorpora, o esvazia.
Mas insistimos na proposição e na causalidade, no juízo: O que é dança?
Por que se dança e como se dança? E, sob algum predicado, por exemplo,
“brasileiro”, reconhecemos a ação: ora, se é dança brasileira, então ela
expressa e representa a cultura brasileira; esta, por sua vez, também está
conceituada, ajuizada; dessa forma, quem não participa da ideia de brasilidade não pode se afetar pela experiência; não
poderá a entender; permanecerá de fora; observando o que insiste exterior, ou seja, que não incorpora
naquele que, com o atributo “brasileiro”, por exemplo, não se identifique. Sabemos,
todavia, que não é assim: que é possível que deixemos, no samba, de sermos
turistas, de sermos de fora, para sambar, para estar ali, no acontecimento da
descoberta, da arte, afetados por ela. É possível que a música de Beethoven
permaneça para além de sua época e, não precisemos saber o que aconteceu
naquele momento para que a música dialogue conosco; a gente não precisa ter
ouvido ou lido toda a história da música para alguma música fazer sentido; a
gente precisa, sim, ouvir a música! Mas, se por exemplo, na música e dança da
capoeira, deixamos de jogar para analisar, para entender que tudo aquilo, em
sendo brasileiro, é herança do africano, que se liga com a escravidão, remonta
à luta de classes – não haverá tempo para ser afetado, só para confirmar o que
já sabíamos, para tornar o visto apenas ilustração, comprovação de uma ideia. Porque,
afinal, só nos afetamos pelo estranho, pelo não sabido, e não pelo familiar,
pelo semelhante, pelo conhecido, pelo igual. É preciso que capoeira seja sempre
surpreendente!
Desse modo, um branco, de formação cristã, também pode se emocionar num
terreiro, mesmo que não seja (ele não precisa ser predicado) como
candomblecista, umbandista. Ser comovido e ter uma experiência – própria – não
significa obedecer aos juízos do que seja estar num terreiro. É possível que
aquela experiência, misturada a outras, gere uma aberração: um cristão espírita ateu greco-romano umbandista!
Ou seja, na contradição dos atributos, já não há suporte ou predicação, porque,
impossível, a lógica. Há o próprio. O sem parâmetro. E, portanto, sem
comparação. Por isso, concretamente diferente. Poético. E verdade. A verdade deste corpo.
Mesmo quando, na dança, seguimos um modelo, uma técnica, um meio para chegarmos,
de novo, à forma pré-tendida, garantimos a reprodução? É sempre ao mesmo corpo,
à mesma dança, que se chega? Todos, dançando balé, samba, valsa, salsa, dançam igualmente? Por que não? Porque todo
caminho prescrito, de orientação de nossos passos, de nossos movimentos, vindo
ao nosso encontro como tudo o mais que na vida nos vem, também se mistura –
interfere e é interferido pelo que em nós perfaz história, memória, experiência
que não começou ali, nem terminará, porque só há princípio. Princípio. Princípio.
Quer dizer: a experiência, sempre sendo diferente, faz com que o diálogo, o
modo de lidar com a técnica também gere diferentes danças. A ponto de, em
determinado modo, transgredir a técnica, afetar o que o afetou. Questionado por
ela, questiona-a. Gerando outro caminho, outra técnica.
Na valorização da arte, Heidegger está fora da lógica da salvação como
promessa de síntese, de religação do caos em nome do progresso, de um mundo
perfeito, um mundo melhor. Não: é a religião e a tecnociência que idealizaram
um mundo melhor e perfeito. Heidegger falará, sim, em salvar no sentido originário: salvar-se como conduzir-se ao sumo,
ou seja, consumar-se. Consumar o que é? O próprio. O que cada um é. A sua
diferença. O seu limite e não limite: o seu perigo.
Não podendo ser dita (no sentido de ser representada, ser conceituada, se
escrita – e toda escrita é razão, e
não há razão sem escrita), a diferença, o perigo do corpo, o corpo a perigo só
pode ser perpetuadamente vivido, experienciado, descoberta. Ou melhor: não é o
homem – sujeito da realidade – que descobre a diferença. Nem a diferença lhe
pertence. Na verdade, tudo o que ele é (tudo o que já veio à sua consciência ou
razão) é obra, é fruto, é co-memoração de encontros e encontros, alterações,
diferimentos, ferimentos, ou seja, aberturas. Isso quer dizer que a arte salva porque coloca o humano ao encontro
de sua humanidade ou humanização: na sua abertura. Não salva quando o permite
integrar-se ao sistema que o exclui. Salva quando o exclui tão radicalmente do
sistema, quando se torna independente, livre, dele. Que celebra o sem sistema! Salva
quando não tira o humano da morte, mas, recolocando-o na sua mortalidade, o põe
e o repõe na vida.
Contudo, a nós só nos é ensinado o tempo todo a sair da vida, do mundo,
viver em função do que está além dele, viver para, por causa de uma morte,
assim, conceituada, idealizada. A nós é ensinado viver para morrer enquanto
morrer for vida ainda, celeste ou infernal, mas sempre etérea.
Se a questão, então, eminente é a referência entre arte e humanidade, a
pergunta eminente serásempre: ser humano – o que é isto? O mundo moderno disse:
um animal racional. Mas tal definição, diz Heidegger, é tradução de uma sentença
grega, que diria, na verdade, que o homem é aquele ser vivo de quem a linguagem
cuida e cultiva. Aquele que é na linguagem. Restaria, então, aqui, diferir o
homem como quem é definido pela razão e o homem como quem só é porque na linguagem
(porque é na linguagem que o é é).
Mais que isso: diferir linguagem de razão, libertar a linguagem da razão, ou
seja, da visão de que ela é o meio que o animal humano tem para raciocinar.
Diferir linguagem de razão é toda a tarefa de pensar a tradução do logos grego por razão e não por
linguagem. É morando na linguagem, tendo-a por casa, que o homem se revela: ser
em ação: ser em corpo: corpo sendo: realidade se interpretando, emergindo como
sentido, imergindo, indefinindo. A arte e, mais precisamente, a dança como o
lugar da experiência do corpo é, primeiramente, lugar da experiência da linguagem – a dança é onde e quando a linguagem se descobre
porque desencobre o ser, o deixa estar, num próprio, na diferença de um corpo. Existência.
O que não significa que Heidegger seja um existencialista, ou seja, alguém que
torna o pensamento da existência como eventual, entre outros possíveis. Isso
seria ainda acreditar que a existência é um dos predicados do homem, ou seja, seria
pressupor ainda o sujeito e seus predicados, o sujeito e sua existência. Pressupor
o ser como traço do ente! E não o ente como um traço, um limite do ser, da
existência!
É o francês Jean-Paul Sartre que se aproximaria mais da noção de
existencialismo: negará a essência (por não haver ideia ou fundamento prévio) e
considerará que tudo é existência, ou melhor, que pela existência a essência se
conquista, o vazio do sujeito se preenche na consciência: o homem, não sendo
nada, permanece ainda primeiramente consciente e senhor da ação, constrói sua
essência historicamente segundo seu livre-arbítrio. Aí, o paradigma de fora e
dentro (que é sempre o dentro e o fora do sujeito humano, sempre ele como
centro realizador da mediação!) se mantém: o fora a construir o dentro (em vez
de o dentro construir o fora, como no pensamento moderno tradicional).
Heidegger, na verdade, dirá que a existência não é do homem (Eu, homem, tenho uma existência: eu existo!).
Reiteram-se, nessa formulação, de um lado, o homem (o sujeito) e, de outro, a
existência (o depois, o que ele vem a ser, algo, uma coisa, uma objetividade).
Não: o homem é quando já lançado, quer
dizer, o homem – quando lançado à vida, à morte – já é, já existe, e só aí
existe o existir. O humano. Ele está
sempre dentro (“fora”, na realidade, constitui o ser que não ganhou ainda lugar,
incorporação, humanidade; o que permanece ainda não: silêncio). Lançado,
imediatamente, nas coisas, no que vem ao seu encontro, estão também elas
imediatamente nele. Estão dentro? Fora do homem, as coisas? É na fronteira, no
entre, que podem dentro e fora se desdobrar. Não há como haver dentro e fora
sem limite, sem a dobra de onde eles se desdobram e, a um só tempo, se separam e
se unem. Este limite, o do ser, é dado, se dá na e pela linguagem: daí, vivido
como corpo, não no corpo, pelo corpo. Mas, simplesmente, o corpo vivido e
vivível.
Dito de outro modo, se existir
é estar, pôr-se para além de, para fora, aberto, insistir seria estar para dentro, isolado, ensimesmado. Existir,
então, abrir-se – para a diferença.
Insistir é fechar-se. Manter-se
igual. Um in-divíduo: algo que não se divide, que não compartilha, não se
perde. A questão, por isso, não implica trocar, tal como fez o Ocidente
pós-moderno, pós-estruturalista, a crença na igualdade, sempre-igual, pelo
elogio da diferença sem permanência; trocar a essência pela existência. Reportando-se
aos gregos anteriores ao platonismo e ao aristotelismo, Heidegger mostra que
igualdade e permanência não são sinônimas. Se só mudássemos, sem permanecer,
não saberíamos que mudamos, que houve e há mudança. Seria uma coisa, e o fim
dela. E outra, e o fim dela. E outra, e o fim. Separadamente. A cada instante, porém,
somos diferentes, mas continuamos. Não somos abertos de tal modo, que então,
coincidindo com a abertura, nela nos perdendo, corpo algum mais existiria,
porque ele mesmo já o próprio sem corpo. Enquanto nos abrimos e recebemos
corpos que, por sua vez, se abrem para receber o que, de nós, permanece. E permanece vazio. Quer dizer: é permanecendo corpo, como corpo, que a abertura é. Que não ser é. E o que é é (o corpo é) não ser. Vazio. Quer dizer uma vez mais: é permanecendo corpo, que
o ser e o não ser fazem sentido (e, logo, silêncio) na ou como linguagem: força i-mediata e, não, mediata do pensamento, a serviço dele,
como meio de/da razão, de instrumentalizar a própria corporeidade, fazendo com
que o ser insista, se abstraia, se
torne objeto, objetivo, perca a concretude de permanecer mudando; e, mudando,
permanecer.
Tal é o desabrochamento do ser em cada e como cada próprio: alguém que
não é sempre a mesma coisa, mas é sempre o
mesmo se alterando. O sentido de verdade,
diz Heidegger, a partir dos gregos arcaicos: revelação do que, existindo, não
insiste, mas persiste. Que persistir não é insistir! Persistir traz este “per”
que vem do grego “peras” e significa “limite”. Palavras como perigo, percursos,
percalço, perímetro, peregrinação, perturbação, porta, porto evocam a noção de
liminaridade, de fronteira e, logo, tem no corpo, nos seus desvelos e véus, a
única verdade.
A COREOGRAFIA
Aonde chegamos? Ora, dissemos que a questão não é considerar que tudo o
que o sujeito é vem de fora, de um mundo objetivo, de sua relação com
objetividades, de seu pertencimento a um sistema; tampouco, que o mundo é
objetivado por algum um sujeito prévio (e construtor dos sistemas-relações). Antes
de fora e dentro, flagramos limite, somos flagrados pelo que dá limite ao ser,
ao vir a ser e deixar de ser, ao infinito: pelo que dá corpo. E é no corpo e
como corpo se mostrando e se ocultando que cada um será verdade. Criação. Poética. Não mais “verdade” como sinônimo de
correção, de certeza, de prova e, logo, não mais admissão da mentira, do falso,
da ilusão como um contraponto. Tudo o que do corpo participar será. É. Ou seja: será e é real. Se está
em ação, em experiência, se corporifica, não é mentira, não é falso. A
fantasia, o fantástico, o sonho, o louco – tudo isto não está fora da realidade!
Tudo isto compõe, depõe o real. Outrossim, o real só muda, se altera, porque,
não estando dado, provém do caos da realidade: ela é absurda. Sonha-enlouquece justamente
para deixar ser tudo o que é, não era, poderá vir. E vem. E vai. Já foi.
Tudo isso soa estranho ao mundo
nosso, objetivo, porque nossa sociedade, se consolidando em torno de
parâmetros, eixos, normas, gera contrários excludentes, gera excluídos: o
normal instaura anormalidades, anômalos, marginais, desobedientes,
transgressores: os próprios artistas. Então, quando Heidegger diz que temos de
nos voltar para a fala da arte, para o pensamento poético, para o pensamento do
corpo, parece, para quem reduz o real a algo objetivo, um absurdo, uma loucura,
um falta de cabimento: parece que, então, entregaríamos o poder aos loucos, aos
sonhadores, aos desajustados! Trata-se de entender, sim, que o poder do homem
não é do homem, se dá ao homem – a natureza, a vida lhe dá todo poder ser um poder ser. Desse modo, não
se elogia à perda de todo limite, o livre-arbítrio de fazer qualquer coisa, de
qualquer jeito, pois – se dissemos que o limite é sempre a morte – a questão é
afirmar não só a nossa vida, mas também a da outro, respeitar o limite entre
nós e os outros. Não fazer com o que nosso desejo de vida seja o aniquilamento
do alheio.
Quando a ciência se depara com a falta de objetividade do mundo – quando
a razão entra em colapso, quando as próprias disciplinas, como campos,
compartimentações da realidade, já não podem ficar separadas, mas pensar
conjuntamente, interdisciplinarmente, transdisciplinarmente – ela acaba,
inevitavelmente, buscando um diálogo com a arte – pois, afinal, a própria arte
teve se tornar uma disciplina, uma
área de conhecimento entre outras (mas, porque, irracional, ou seja, tratando
do que não é razão, da outra parte, a não científica, se sagrou menos
importante como estudo, nas academias, escolas, universidades). Começa-se, aí,
a buscar ouvir a arte quando, então, a ciência entende que o não científico (o
não objetivo, o não claro) também é
importante, é preciso incluí-lo no
sistema. E, então, a arte, o que não cabe em sistema – enquanto o obscuro
dele – se subjuga ao pólo inventado pelo próprio sistema, o da razão: à
contraparte do subjetivo. Valora-se a
arte, como mais um meio, ou seja, mais um modo de servir, de relevá-la na
medida em que serve para. A arte, então, a te rum papel, uma utilidade para os
sujeitos, na medida em que a resolver, agora, a dualidade objetivo x subjetivo,
ou seja, na medida em que mantém o próprio espírito epistemológico, científico.
Só que, mantendo-se a divisão objetivo x subjetivo, claro x obscuro, o pensamento
não se liberta da razão para a arte, não se liberta do animal racional para o ser
vivo na linguagem (porque é preciso, afinal, esclarecer o obscuro, é
preciso fazer com que a arte tenha e seja razão, tenha e seja ciência da arte –
a lógica ou análise da obscuridade, ou seja, um complemento para a ciência e já
ciência. E, não, arte. Então, vemos aqui e ali, a dança como terapia, como
contribuição à saúde mental, na psicologia. A dança como reabilitação. A
dança-educação. Dança como lugar de reconhecimento sociocultural do feminino. A
dança como inclusão social. A dança como representação da luta de classes.
Enfim, a dança tentando responder não às questões do ser do humano (morte,
vida, tempo...), mas a problemas situacionais, criados por um determino modo de
mundo que alijou a arte, que não acreditou na arte e que, agora, acredita, sim,
desde que ela ocupe o lugar que a ciência lhe conceda.
Dizer, enfim, que o pensamento poético não traz salvação (para os
problemas do mundo moderno, para a pobreza, para o gênero feminino) está,
sobretudo, a reiterar que a arte não parte de problemas. Logo, nada tem de resolver. Problemas pressupõem
soluções. Quem soluciona é religião (com fé), ciência (com provas), filosofia
moderna (com teorias). Solução quer dizer: fórmula. Para o progresso, para a
felicidade. O que é a plena felicidade? Basta pensarmos o que é a plena
infelicidade. Morrer. Perder alguém. Cogitar a ausência. Nada nos deixa mais
infeliz que a iminência e a eminência da morte. Para acabar com a morte, em
nome da imortalidade do homem, o pensamento que ora se critica. Ao buscar o
poético, ao buscar o nada, Heidegger nos coloca de novo na morte, no princípio
do ser, no apelo da vida, para a vida, no apelo da nossa humanidade, de nossa
voracidade pelo presente. Colocar o humano na morte não é, aí, pessimismo. Não
é considerar a morte como algo no fim da vida e que, quem sabe, religiosamente,
cientificamente, podemos negar, adiar, romper, desfazer. É acatando a morte
aqui e agora, enquanto se vive, que vivemos, e podemos, e devemos viver o aqui-agora
ínfimo e infinitamente.
Afirmar a vida não é camuflá-la na garantia, pela arte, do acesso a informação
(se o sistema continua); afirmar a vida antes de ajudar o louco (se o sistema
continua); afirmar a vida antes de representar o preconceito racional (se o
sistema continua). Continuar o sistema
está a dizer: deixar o mundo, assim, objetivo. Apenas o re-arrumar. Afirmar a
vida, por outro lado, na arte, como arte, quer dizer bagunçar um mundo, para, partindo do i.mundo, advir um novo.
Na objetivação e subjetivação compulsivas, assistimos uma dança e então
não dançamos, deixamos de dançar para ficar procurando a ideia da dança, o
motivo, o objetivo, a finalidade. Ou seja, tudo é mais importante do que aquilo
que está em ação (não mais na arte como objeto, mas em ação entre o que se obra
e nós mesmo como parte do obrar). O importante tem sido sempre o que provocou a
ação e não a compreensão de que a ação é a provocação possível. Assim,
entendemos, por exemplo, que alguém dança para expressar um sentimento. Já,
então, partimos de uma ideia (de sentimento!), para, então, depois dançar. E
dançar será nada mais que representar o conceito. Expressar uma razão, um
sentimento (porque aí o sentimento, como conceito prévio, é razão). Quando não
é? Amar, por exemplo, se aprende amando. Não podemos saber o que é o amor e
cogitar um juízo sobre o amar sem que já não houvesse corpo amado-amante. Logo,
é no corpo, como dança que amor – sentimento! – se funda e afunda, afunda e
funda, sem conceito prévio, apenas como sentido, e não semântica: corpo, dança,
descoberta e encobrimento. Mas na dança, na música, na literatura, buscamos o
dentro. A causa. O autor. Ao buscar, o que é o autor, tentamos, também vemos o
que, nele, no seu corpo, na sua história, também tem causa. Ele pertence a uma
época. A uma cultura. Então, a dança é expressão deste autor, representação de
uma cultura, de uma época. Enfim, tudo está dado, está abstraído: o autor, a
cultura, a época, o tempo, o espaço. Ficamos relacionando coisas dadas, quando,
na verdade, a dança está, naquele momento, já fundando o ainda não dado, na
cultura, na época, no tempo, no espaço, naquele homem, e por isso, como as
demais artes, fundação de mundo novo, e não representação de mundo dado.
Por vezes, costuma-se, na constatação de que as coisas, não estando
dadas, não havendo essência, não têm autor, apelar para o leitor, ou
espectador, ou ouvinte, como o único autor possível. Vazia de significado, como
puro significante, o espectador dá a significação: preenche a lacuna. Mas este
sujeito também não é, neste raciocínio, vazio, sem essência? Como ele constrói
o sentido do que não tem essência, se ele também, essência, não tem. O autor,
sem essência. A obra, como um objeto, sem essência. O leitor, sem essência. E um
se relaciona com outro. Como, se cada um pelo outro é feito, desfeito, refeito.
Então, não o leitor, o ouvinte, o espectador que, a seu bel-prazer, constrói a
razão da obra, na medida em que nenhum dos dois têm alguma pré-definida. Ele,
leitor, é construído pela obra, na mesma medida que a obra também é o que
inventa o artista. Este, não sendo a origem da obra, tem nela a sua origem.
Deixar, então, a obra falar – e não o homem – é, neste pensamento, deixar que
no humano em obra fale primeiramente a linguagem. O homem não constrói a obra,
ele se constrói na medida em que ela, construindo-se na linguagem, pronuncia o
humano. Este é, na arte, em arte, a cada vez, obra. O novo desafio, dirá
Heidegger, será, então, não mais supor linguagem como meio de expressão, de
comunicação entre sujeitos, ou entre sujeitos e objetos. A linguagem como o que
deixa tudo estar em tudo, reunido e, a um só tempo, distinguível: um. A
linguagem como o que deixa cada um ser cada um.
Por fim, quando Fernando Pessoa diz, em outro momento, “o quem em mim
sente está pensando”, detona toda a ocasião de um pensamento encarnado. Não de
uma razão simultânea à emoção, como se, na hora de dançar, estivéssemos, a todo
tempo, na razão, no controle. Ensaiando uma coregorafia, ou seja, aprendendo a
dominar ou controlar os movimentos, a dança, em verdade, só acontecerá quando
tudo deixar de ser degrau e procura, obediência a, a fim de que, porque –
incorporado, assimilado – parte de nós, irreversível. Quando não mais
procuramos a dança, porquanto já não somos procurados pelo e no dançar. Sermos
procurados por: ouvir a voz do ser: a linguagem. Isso, a vida da arte na arte
de todo viver. E, talvez o poeta, um Manoel de Barros, ainda nos ouvidos,
revele o que, em Heidegger, em Guimarães Rosa, em Alberto Caeiro, é o
nada acontecendo na palavra (e, oxalá, na crítica, na interpretação, por vir,
de alguma dança...):
O que não sei fazer desmancho em frases
Eu fiz o nada aparecer
(Represente que o homem é um poço escuro
Aqui de cima não se vê nada
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver
o nada)
Perder o nada é um empobrecimento
Eu fiz o nada aparecer
(Represente que o homem é um poço escuro
Aqui de cima não se vê nada
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver
o nada)
Perder o nada é um empobrecimento
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