sábado, 22 de setembro de 2012

EPIDERMÁTICA

Caio Meira é desses poetas, vivos, contemporâneos, que escrevem com o tutano dos ossos, no nevrálgico do corpo, bem como na corporeidade dos verbos. Este "close to the bone" é um dos belos poemas que compõem seu livro Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer:


We are all sculptors and painters, and our material
 is our own flesh and blood and bones 
Thoureau




acordo e durmo debaixo da pele, sobre a crosta da terra, com camadas de cidade enterradas
movimento películas e superfícies entre outras películas e superfícies quando saio à rua, ou quando me encosto no parapeito desta janela que se despede da noite
acordo e durmo entre membranas impalpáveis, com enzimas, autoregulações e imponderáveis combustões
metabolizo rostos e teorias em meio à confusão de lembranças despropositadas, entre secreções sebáceas, tubos, alvéolos e histórias acumuladas
por vezes sinto esse torvelinho dentro da barriga, e não sei se é fome ou lembrança de fome, ou se são movimentos espontâneos da voracidade do vazio
nem sei que tipo de limite representa a pele, se me separa da madrugada ou me une a ela
se o frio que sinto nesse vidro me pertence ou sou eu que pertenço ao frio ou ao vidro, ou se o ponto em que tudo se entrelaça surge apenas para desaparecer 
sei apenas que sou permeável a esta manhã que desaba seus vermelhos por prédios e morros, por muros e árvores

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