sábado, 22 de setembro de 2012

AULA - LINGUAGEM



AULA – LINGUAGEM

(adaptado livremente de “Uma morada. linguagem e poesia em Heidegger”, tese de doutorado de Maria Ignez Moll, PUC-RIO, 2008).

A linguagem não é um instrumento disponível que possibilita a comunicação entre os homens, ou seja, a linguagem não se resume a um meio de expressão. Contudo, na era da técnica, a linguagem é vista exclusivamente como meio que serve à troca de informação. Por isso, o filósofo afirma que para pensar a linguagem é preciso penetrar na fala da linguagem e não na fala do homem. No entanto, o homem só pode dizer, ou melhor, mostrar e fazer aparecer aquilo que se mostra a ele. Por isso é que, antes de se tornar um dizer, a linguagem é na maior parte do tempo uma escuta, ato que só se torna possível quando o homem compreende a palavra, por exemplo, não apenas como signo que remete ao significado, mas como abrigo permanente, capaz de arrancar do esquecimento abissal o próprio existir das coisas. É este dizer e, ao mesmo tempo, a escuta deste imenso silêncio que permite ao homem tornar-se mortal, impedindo dessa maneira que ele permaneça congelado na idéia do animal racional.
            O filósofo Martin Heidegger pretende encontrar na linguagem uma abertura para aquilo que nos falta, pois, para ele, o homem precisa novamente aprender a morar na linguagem. Mas a linguagem aqui não se resume a um instrumento de expressão. Se assim fosse, estaria a serviço do pensamento e não o contrário. No entanto, o homem não concebe mais conceber a linguagem senão como instrumento disponível que possibilita a comunicação entre os homens, isto é, a linguagem é vista exclusivamente nos dias de hoje como MEIO.
            Para pensar a linguagem é preciso penetrar a fala da linguagem e não a fala do homem. Somente assim é possível alcançar o âmbito em que a linguagem nos confia de fato o seu modo de ser. O homem só pode realmente falar á medida que escuta. Na verdade, segundo o filósofo, o dizer dos mortais é essencialmente resposta. Torna-se imprescindível, portanto, que o homem escute a linguagem quando ela fala. A poesia, ou melhor, a experiência poética da(s) arte(s) lida de modo diverso e privilegiado com a linguagem, porque está a serviço dela, e não ao contrário, no caso do pensamento que – como razão – põe a linguagem a seu serviço (como seu objeto). O pensamento poético parece ser o único capaz de dar conta do que não é meramente representacional. Heidegger se refere, a todo tempo, à racionalidade imperante no mundo da técnica, pois a linguagem técnica, desenvolvida em sistemas de mensagens e sinais, oferece a mais violenta e perigosa agressão ao caráter próprio da linguagem. Com a dominação da técnica e com a transformação da linguagem em meio, é o mundo que se perde na sua concretude ou concriatividade, restando apenas dados que não passam de mera informação.
            A arte – a poesia – na é de maneira alguma algo que se insere na realidade e reclama por um resultado. É nela, na poesia, que os homens se reúnem sobre a base de sua existência. A palavra dá ser e isto quer dizer que a linguagem não é expressão nem representação, mas doação de ser. É nesta reflexão que Heidegger busca o sentido do ato de nomear, mas, para isto, precisa desce a uma dimensão mais profunda, em que a palavra possa mostrar toda a sua força doadora e não mais como signo, que remete a um significado. Mas como abrigo permanente, capaz de arrancar do esquecimento abissal o próprio existir das coisas.
            Segundo as concepções correntes, a linguagem é: 1) uma capacidade e uma atividade do homem; 2) o funcionamento dos órgãos da fala e da audição; 3) a expressão e a comunicação dos movimentos da alma guiados pelo pensamento; 4) uma representação do real ou do irreal. A definição corrente de linguagem se estabelece com Aristóteles. Para este, a linguagem é expressão de um interior, ou seja, da alma, por um exterior – a voz, a escrita. Desse modo, as palavras como sons vocais ou sinais escritos referem-se às afeições da alma. No entanto, falar é essencialmente dizer (podemos falar e não dizer nada). O que se quer dizer é o que se quer mostrar, é o que se quer, ou melhor, nos quer, a ponto de, em resposta, deixarmos que isto se diga por nós. Dizer é mostrar, levar uma coisa ao aparecer. O homem só pode assim, dizer, mostrar, fazer aparecer aquilo que se mostra a ele. É por isso que a linguagem não é um instrumento disponível que possibilita a comunicação entre os homens, embora seja esta a concepção corrente: a linguagem enquanto meio, troca de informação. A informação é exatamente este falar que nada diz, pois está sempre em função de, a remeter a, a apontar para a coisa que está necessariamente fora dela, porquanto nela só se representa. Quando a fala se torna informação, e nada mais. Para cada coisa, uma explicação. E nada mais.
            Contudo, como foi visto, falar é antes de tudo um dizer e mais precisamente um mostrar. A essência da poesia, em sentido mais amplo, é o dizer no sentido de tornar algo visível, ou seja, revelar algo. Sendo a linguagem poesia em sentido essencial, a possibilidade de aquela se transformar em instrumento e consequentemente em informação encontra-se na própria linguagem. Isso ocorre quando o dizer como mostrar é concebido de tal maneira que mostrar signifique somente dar sinais, que, por sua vez, são definidos de maneira unívoca. Um exemplo são os sinais em Morse. Ou os dígitos binários processados por um computador. A univocidade dos sinais se torna fundamental para o processamento da informação que serve à comunicação eficiente. Aí, a linguagem serve não apenas de comunicação entre homens, mas de comunicação entre computadores. Por isso, Heidegger afirma que a linguagem técnica, desenvolvida em sistemas de mensagem e sinais agride ao que, na linguagem, é poeticamente seu próprio. Pois aí não á existe mais fim a ser alcançado senão a manutenção do funcionamento de um sistema instrumental imposto pela vontade do sujeito. É precisamente aí que talvez o homem possa dar conta de tal esquecimento do que nas coisas não está dado, pronto, disponível, como objeto, objetivado, claro (sem sombras, sem silêncios, sem aberturas, sem porvir, sem futuro, sem vir a ser, sem deixar de ser), ou melhor, que talvez o homem possa dar conta da redução dos entes a um sistema totalmente organizado. A possibilidade de ir mais além ao se dar conta de tal esquecimento permite a colocação de uma pergunta capaz de abrir outros caminhos. Tal pergunta é um passo para trás, tal pergunta pretende percorrer caminhos inusitados. Esse passo para trás implica percorrer a história com que a questão do ser foi e é conduzida. A questão do ser está dizendo: a questão do que é, do que é real, do que pertence à realidade, à vigência do que há (e também do que não há, mas, como possibilidade, vigora: pode ser). Heidegger, assim, recoloca a tradição no horizonte dessa questão e mostra que a metafísica ocidental deixou o ser esquecido, isto é, só comemora o ente, o dado, o objeto, o posto – um real passível de ser delimitado, definido, organizado, sem mais caos, ruído, mudança, princípio permanente.
            Ao recolocar a questão do ser no horizonte da tradição, Heidegger vai aos poucos, também mudando seu pensamento – ele também não está dado no seu presente e, de repente, volta; não: é perguntando pelo que no seu presente é herança, memória, permanência de um pensar que não passou, persiste, que dialogando com o que recebe, recebeu, já é outro, abre-se à possibilidade de um futuro. De um futuro do passado. O seu (novo, o sempre novo) presente.         Enfim: Heidegger procura, retomando a tradição, buscar aquilo que o princípio da cultura, pensando o que estava em questão, mas não foi trazido ainda á palavra: deter-se no ainda impensado na palavra dos pensadores essenciais. Por exemplo, o logos, que aparece, primordialmente, em Heráclito. De acordo com Heidegger, o logos foi interpretado de muitas maneiras, mas, acima de tudo, como ratio, ou razão. No entanto, o homem sempre se esqueceu de pensar de onde provém a essência da razão. É do légein que depreendemos o logos. Légein diz de modo originariamente o que, em latim, se escreve como legere (que culminar no verbo “ler”): colher e apanhar. E, a toda colheita, pertence sempre um recolher que acolhe: daí se tem que o traço fundamento da colheita é o abrigar. Mostrar-se. O pôr ao abrigo, muito antes de ser a última etapa de uma colheita, a atravessa e a rege de uma ponta à outra, e, desse modo, constitui a sua essência. Logo, o falar da linguagem, que vige no légein, não se determina pela articulação de sons, e nem muito menos pela significação. A compreensão do verbo légein só pode ser atingida completamente quando o examinar associado ao verbo ouvir, ou seja, ao que se lhe doa, ao que acata, abriga, o que deixa estar junto de, re-unido. Um. Incorporado. Corpo.
            Se o dizer não se define pela articulação de sons, o ouvir não poderá constituir em se apreender o som. A escuta só se torna possível quando pertencemos ao apelo que nos traz a fala. Há toda diferença entre a simples captação do som e a ação de se pôr à escuta pelo simples fato de que o ouvir autêntico é, sobretudo, um recolhimento. Essas afirmações indicam que o logos é o recolhimento originário de uma colheita original a partir de uma postura inaugurar. Enfim: o abrigo, o dar casa, corpo a um isto que veio e vem a ser, deixá-lo ser propriamente, deixar que o ser seja, esteja. Faça: sentido. Ganhe cuidado. O verdadeiro ouvir, assim, não é ouvir outra pessoa, mas ouvir o que ela também ouve, ouvir o apelo que a levou á fala, o mesmo apelo que, nos deixando vir a se mostrar o que se mostra a ela, perfaz o um, o sentido, a força do que se quer dizer por nós (e não do que nós queremos, decidimos dizer, como se fôssemos os agentes do processo e a linguagem meio, a coisa, o objeto; e não nós o meio, pelo qual o ser é, ou seja, se presentifica, está na linguagem). Assim, a escuta autêntico é todo âmbito em que, se cuidando e nos cuidando, a linguagem nos per-facciona, nos re-une conosco na medida em que reunidos com tudo, a tudo; na medida em que, em tudo, nos vemos integral e, como tal, em diálogo distinto, distintos. Próprios.
            A representação atual da linguagem se encontra muito distante do que teriam intuído os pensadores originários ao se depararem com o logos. Mas o que acontece quando chega à linguagem o ser dos entes, os entes em seu ser, quando a diferença de ambos chega à linguagem como diferença? Para Heidegger, levar à linguagem é abrigar o ser na essência da linguagem. Por tudo isso, o dizer não é uma manifestação fonética de um conteúdo, mas sim fazer aparecer. Eclodir. Diz Gadamer: “o que há de propriamente misterioso na linguagem é o fato de ela deixar ver, ser tocado por, de modo que isto se apresente”. Todavia, este fazer aparecer nada mais é do que um desvelamento – tradução para a palavra grega aletheia: verdade. É neste sentido que fazer aparecer é o mesmo que deixar ser, pois em todo desvelar já existe sempre um velamento, ou seja, aquilo que se desencobre e que estava velado também é ao mesmo tempo preservado como o que é abrigado na medida em que retorna à palavra. Por isso, o dizer é: “ao mesmo tempo esse combate para conservar na presença o que em qualquer instante pode se retirar na ausência – ausência que, no entanto, não é o nada como nulidade, mas a reserva do ser”.
            A discussão tradicional sobre a linguagem ocorre no âmbito da metafísica (no modo de pensar ocidental dominante), isto é, toma-se sempre a linguagem como um objeto. Mas a linguagem não pode de modo algum ser considerada um objeto para o pensamento caso este queira realmente alcançar o que é próprio da linguagem. Tornou-se totalmente infrutífero para o pensamento falar sobre a linguagem. Aliás, o homem só pode fazê-lo porque parte sempre do princípio de que a linguagem é um instrumento de comunicação que ele possui.
            No intuito de romper com a concepção corrente, Heidegger substitui “O homem fala” por “a linguagem fala”. Daí se tem que o pensamento é que está a serviço da linguagem e não o contrário. Desse modo, o homem não pode ser o sujeito e nem o senhor da linguagem. Para pensá-la, é preciso penetrar na fala da linguagem, que homem ouve, e não na fala do homem, que ouve, sempre primeiramente, a possibilidade de ouvir e dizer. Chega-se aqui, mais uma vez, á questão da escuta, pois, se é a linguagem que fala, então homem só pode falar á medida que escuta a linguagem tanto no sentido da audição quanto no sentido da obediência, da pertença. Uma coisa é o conhecimento científico sobre a linguagem, outra é a experiência que fazemos com ela: “Fazer uma experiência com algo, seja com uma coisa, seja com um ser humano, com um deus, significa que este algo nos atropela, nos vem ao encontro, chega até nós, nos avassala e transforma” (HEIDEGGER, A caminho da linguagem).  Fazer, aqui, não tem o sentido de produzir, mas, sim, de sofrer e receber, ou seja, fazer uma experiência com a linguagem significa deixar-se tocar propriamente pela linguagem. Na experiência com a linguagem é a própria linguagem que vem à linguagem. Nesse momento, toda vontade de conhecimento – de sistematização, de conceituação, de objetivação e, logo, de afastamento do que não pode esta fora, nem perto, mas ser o acontecimento propriamente vivido – deve ser abandonada. Enfim, a experiência da linguagem quer, aí, sempre dizer: entrega. A experiência, como acolhimento, não é conhecimento, não é fazer a coisa, uma coisa, um corpo à representação, ao cálculo, ao conceito; ter ou ser uma experiência é submeter-se ao que é. Mas, segundo Zarader, se submeter-se a vontade do conhecimento dá lugar ao cuidado de uma experiência, então a própria noção de essência se esvai ou pelo menos exige ser repensada numa perspectiva outra”. Como já foi dito anteriormente, não estamos no âmbito do conhecimento de um determinado objeto, mas, sim, no âmbito de uma experiência, portanto, só concebemos aquilo que a linguagem é quando penetramos no que o sinal de dois pontos entreabre – “A essência da linguagem: a linguagem da essência”. A essência, aí, sendo o ser – sendo o ser sendo, isto é, deixando ser, vindo ser, isto é, já não mais o que era e é, ou ainda não sido, ainda não, nada, abertura, aparece como o sujeito da linguagem. Não mais o homem. É como linguagem, que a essência se humaniza. A palavra essência não significa mais o que uma coisa é, mas o vigor daquilo que nos concerne. Quer dizer: ao invés de tentar em vão chegar à linguagem falando sobre ela, trata-se, sobretudo, de compreender que só é possível falar a partir da linguagem; só é possível ser humano a partir da linguagem, pois já nos encontramos desde sempre na linguagem, mais do que em nenhum outro lugar. Poderíamos dizer: pois já nos encontramos desde sempre no ser, sendo, nunca fora dele. Mas o ser se diz, se revela, o ser é: na ou como linguagem. A linguagem que, mais do que o dito, é a força do dizer, também diz: silêncio. O ser que não é se diz no que, na linguagem, também não é, deixa de ser, vem a ser silêncio.
            O caminho, então, que o homem precisa percorrer para pensar a linguagem não pode justamente conduzir senão para onde já estamos. Ser, linguagem e origem – nada disso está em outro lugar e, no entanto, a única tarefa do pensar é tentar chegar lá, quer dizer, aqui. Ao que nos é próprio.
            É óbvio que pensamos que a poesia é apenas uma modalidade particular da linguagem. Que a dança é uma modalidade particular da linguagem. Que a música é uma modalidade particular da linguagem – como se esta fosse instrumento, meio, para trabalhar as palavras, o corpo, o som, para dar forma às matérias. Na verdade, é o poético – como o deixar ser, o eclodir, a revelação propriamente, é o que torna possível a linguagem. Ou seja: é na dança que linguagem é linguagem. É na música que linguagem é linguagem. É no poema que linguagem é linguagem. Que o ser se mostra concretamente, porquanto tudo isso é o fenômeno, a experiência da criação.
            O pensamento de Heidegger constitui, neste sentido, uma ruptura radical com a estética, na medida em que põe a obra e não mais o sujeito, seja ele receptivo ou criativo, no centro da gravidade da arte. Para ele, o artista está na origem da obra, mas a obra está na origem do artista. Ambos – artista e obra estão na origem do que ganhou e ganha origem, do que doa ser, poiesis. Artista e obra são o que são porque e quando e enquanto na arte, no caminho de desencobrimento dessa doação. Por isso, a arte, sempre pensada, no entre obra e humanao de modo que nenhum dos dois dados, objetivados; de modo que sem objetos, sem sujeitos, a arte não se pense mais a partir dos entes, mas a partir do ser. Do que vem ser no encontro, com o encontro e só como o encontro – o diálogo: a escuta e o dizer. O homem diz a obra ao ouvir, ao ser chamado a uma arte. O homem ouve a obra ao dizer, por deixar que se diga a arte nela, nele.
Desse modo, e para terminar, a essência da linguagem não pode ser nada de linguístico. A essência da palavra, do dizer, do nomear não pode ser nada linguístico. Heidegger chama a linguagem de “casa do ser”, pretendendo dizer a essência da linguagem sem fornecer um conceito, pois, para o filósofo, não é possível definir a linguagem com um conceito. Mas isso não significa que não se possa pensá-la. Heidegger não tem em mente na formulação “casa do ser” o ser dos entes representado metafisicamente, a essa altura ele se refere ao vigor do ser, precisamente à dobra entre ser e ente. A formulação “casa do ser” não pode ser, então, uma fórmula (essa casa não pode ser uma fôrma, algo pronto, algo delimitado, construído). A casa é o lugar onde é possível habitar. A casa é uma morada onde nos demoramos. A casa é local de reunião de homem e ser, onde estes se encontram. Esta casa não é nada mais do que a linguagem. E a linguagem nada mais é, quando e como casa, o corpo. O corpo quando e como o ser (se) acionando. Por isso, para Heidegger, há uma grande diferença entre a palavra que é aceno (corpo!) e a palavra que é apenas signo (o que aponta para o corpo, sem sê-lo). Do mesmo modo, uma grande diferença entre o corpo que é palavra (dizer! Sentido!) e o corpo que é apenas signo (significante, superfície, de um significado, de um fundo, de uma ideia, de um conceito, necessariamente linguístico).

Nenhum comentário:

Postar um comentário