AULA –
LINGUAGEM
(adaptado livremente de “Uma morada. linguagem e
poesia em Heidegger”, tese de doutorado de Maria Ignez Moll, PUC-RIO, 2008).
A linguagem não é um
instrumento disponível que possibilita a comunicação entre os homens, ou seja,
a linguagem não se resume a um meio de expressão. Contudo, na era da técnica, a
linguagem é vista exclusivamente como meio que serve à troca de informação. Por
isso, o filósofo afirma que para pensar a linguagem é preciso penetrar na fala
da linguagem e não na fala do homem. No entanto, o homem só pode dizer, ou
melhor, mostrar e fazer aparecer aquilo que se mostra a ele. Por isso é que,
antes de se tornar um dizer, a linguagem é na maior parte do tempo uma escuta,
ato que só se torna possível quando o homem compreende a palavra, por exemplo,
não apenas como signo que remete ao significado, mas como abrigo permanente,
capaz de arrancar do esquecimento abissal o próprio existir das coisas. É este
dizer e, ao mesmo tempo, a escuta deste imenso silêncio que permite ao homem
tornar-se mortal, impedindo dessa maneira que ele permaneça congelado na idéia
do animal racional.
O
filósofo Martin Heidegger pretende encontrar na linguagem uma abertura para
aquilo que nos falta, pois, para ele, o homem precisa novamente aprender a morar
na linguagem. Mas a linguagem aqui não se resume a um instrumento de expressão.
Se assim fosse, estaria a serviço do pensamento e não o contrário. No entanto,
o homem não concebe mais conceber a linguagem senão como instrumento disponível
que possibilita a comunicação entre os homens, isto é, a linguagem é vista
exclusivamente nos dias de hoje como MEIO.
Para
pensar a linguagem é preciso penetrar a fala da linguagem e não a fala do
homem. Somente assim é possível alcançar o âmbito em que a linguagem nos confia
de fato o seu modo de ser. O homem só pode realmente falar á medida que escuta.
Na verdade, segundo o filósofo, o dizer dos mortais é essencialmente resposta.
Torna-se imprescindível, portanto, que o homem escute a linguagem quando ela
fala. A poesia, ou melhor, a experiência poética da(s) arte(s) lida de modo
diverso e privilegiado com a linguagem, porque está a serviço dela, e não ao
contrário, no caso do pensamento que – como razão – põe a linguagem a seu
serviço (como seu objeto). O pensamento poético parece ser o único capaz de dar
conta do que não é meramente representacional. Heidegger se refere, a todo
tempo, à racionalidade imperante no mundo da técnica, pois a linguagem técnica,
desenvolvida em sistemas de mensagens e sinais, oferece a mais violenta e perigosa
agressão ao caráter próprio da linguagem. Com a dominação da técnica e com a transformação
da linguagem em meio, é o mundo que se perde na sua concretude ou
concriatividade, restando apenas dados que não passam de mera informação.
A
arte – a poesia – na é de maneira alguma algo que se insere na realidade e
reclama por um resultado. É nela, na poesia, que os homens se reúnem sobre a
base de sua existência. A palavra dá ser e isto quer dizer que a linguagem não
é expressão nem representação, mas doação de ser. É nesta reflexão que
Heidegger busca o sentido do ato de nomear, mas, para isto, precisa desce a uma
dimensão mais profunda, em que a palavra possa mostrar toda a sua força doadora
e não mais como signo, que remete a um significado. Mas como abrigo permanente,
capaz de arrancar do esquecimento abissal o próprio existir das coisas.
Segundo
as concepções correntes, a linguagem é: 1) uma capacidade e uma atividade do
homem; 2) o funcionamento dos órgãos da fala e da audição; 3) a expressão e a
comunicação dos movimentos da alma guiados pelo pensamento; 4) uma
representação do real ou do irreal. A definição corrente de linguagem se
estabelece com Aristóteles. Para este, a linguagem é expressão de um interior,
ou seja, da alma, por um exterior – a voz, a escrita. Desse modo, as palavras
como sons vocais ou sinais escritos referem-se às afeições da alma. No entanto,
falar é essencialmente dizer (podemos falar e não dizer nada). O que se quer
dizer é o que se quer mostrar, é o que se quer, ou melhor, nos quer, a ponto
de, em resposta, deixarmos que isto se
diga por nós. Dizer é mostrar, levar uma coisa ao aparecer. O homem só pode
assim, dizer, mostrar, fazer aparecer aquilo que se mostra a ele. É por isso
que a linguagem não é um instrumento disponível que possibilita a comunicação
entre os homens, embora seja esta a concepção corrente: a linguagem enquanto
meio, troca de informação. A informação é exatamente este falar que nada diz,
pois está sempre em função de, a remeter a, a apontar para a coisa que está
necessariamente fora dela, porquanto nela só se representa. Quando a fala se
torna informação, e nada mais. Para cada coisa, uma explicação. E nada mais.
Contudo,
como foi visto, falar é antes de tudo um dizer e mais precisamente um mostrar.
A essência da poesia, em sentido mais amplo, é o dizer no sentido de tornar
algo visível, ou seja, revelar algo. Sendo a linguagem poesia em sentido
essencial, a possibilidade de aquela se transformar em instrumento e
consequentemente em informação encontra-se na própria linguagem. Isso ocorre
quando o dizer como mostrar é concebido de tal maneira que mostrar signifique
somente dar sinais, que, por sua vez, são definidos de maneira unívoca. Um
exemplo são os sinais em
Morse. Ou os dígitos binários processados por um computador.
A univocidade dos sinais se torna fundamental para o processamento da
informação que serve à comunicação eficiente. Aí, a linguagem serve não apenas
de comunicação entre homens, mas de comunicação entre computadores. Por isso, Heidegger
afirma que a linguagem técnica, desenvolvida em sistemas de mensagem e sinais
agride ao que, na linguagem, é poeticamente seu próprio. Pois aí não á existe
mais fim a ser alcançado senão a manutenção do funcionamento de um sistema
instrumental imposto pela vontade do sujeito. É precisamente aí que talvez o
homem possa dar conta de tal esquecimento do que nas coisas não está dado,
pronto, disponível, como objeto, objetivado, claro (sem sombras, sem silêncios,
sem aberturas, sem porvir, sem futuro, sem vir a ser, sem deixar de ser), ou
melhor, que talvez o homem possa dar conta da redução dos entes a um sistema
totalmente organizado. A possibilidade de ir mais além ao se dar conta de tal
esquecimento permite a colocação de uma pergunta capaz de abrir outros
caminhos. Tal pergunta é um passo para trás, tal pergunta pretende percorrer
caminhos inusitados. Esse passo para trás implica percorrer a história com que
a questão do ser foi e é conduzida. A questão do ser está dizendo: a questão do
que é, do que é real, do que pertence à realidade, à vigência do que há (e
também do que não há, mas, como possibilidade, vigora: pode ser). Heidegger,
assim, recoloca a tradição no horizonte dessa questão e mostra que a metafísica
ocidental deixou o ser esquecido, isto é, só comemora o ente, o dado, o objeto,
o posto – um real passível de ser delimitado, definido, organizado, sem mais
caos, ruído, mudança, princípio permanente.
Ao
recolocar a questão do ser no horizonte da tradição, Heidegger vai aos poucos,
também mudando seu pensamento – ele também não está dado no seu presente e, de
repente, volta; não: é perguntando pelo que no seu presente é herança, memória,
permanência de um pensar que não passou, persiste, que dialogando com o que
recebe, recebeu, já é outro, abre-se à possibilidade de um futuro. De um futuro
do passado. O seu (novo, o sempre novo) presente.
Enfim: Heidegger procura,
retomando a tradição, buscar aquilo que o princípio da cultura, pensando o que
estava em questão, mas não foi trazido ainda á palavra: deter-se no ainda
impensado na palavra dos pensadores essenciais. Por exemplo, o logos, que aparece, primordialmente, em Heráclito. De acordo
com Heidegger, o logos foi
interpretado de muitas maneiras, mas, acima de tudo, como ratio, ou razão. No entanto, o homem sempre se esqueceu de pensar
de onde provém a essência da razão. É do légein
que depreendemos o logos. Légein diz de modo originariamente o
que, em latim, se escreve como legere (que
culminar no verbo “ler”): colher e apanhar. E, a toda colheita, pertence sempre
um recolher que acolhe: daí se tem que o traço fundamento da colheita é o
abrigar. Mostrar-se. O pôr ao abrigo, muito antes de ser a última etapa de uma
colheita, a atravessa e a rege de uma ponta à outra, e, desse modo, constitui a
sua essência. Logo, o falar da linguagem, que vige no légein, não se determina pela articulação de sons, e nem muito
menos pela significação. A compreensão do verbo légein só pode ser atingida completamente quando o examinar
associado ao verbo ouvir, ou seja, ao que se lhe doa, ao que acata, abriga, o
que deixa estar junto de, re-unido. Um. Incorporado. Corpo.
Se o
dizer não se define pela articulação de sons, o ouvir não poderá constituir em
se apreender o som. A escuta só se torna possível quando pertencemos ao apelo
que nos traz a fala. Há toda diferença entre a simples captação do som e a ação
de se pôr à escuta pelo simples fato de que o ouvir autêntico é, sobretudo, um
recolhimento. Essas afirmações indicam que o logos é o recolhimento originário de uma colheita original a partir
de uma postura inaugurar. Enfim: o abrigo, o dar casa, corpo a um isto que veio e vem a ser, deixá-lo ser
propriamente, deixar que o ser seja, esteja. Faça: sentido. Ganhe cuidado. O
verdadeiro ouvir, assim, não é ouvir outra pessoa, mas ouvir o que ela também
ouve, ouvir o apelo que a levou á fala, o mesmo apelo que, nos deixando vir a
se mostrar o que se mostra a ela, perfaz o um, o sentido, a força do que se
quer dizer por nós (e não do que nós queremos, decidimos dizer, como se
fôssemos os agentes do processo e a linguagem meio, a coisa, o objeto; e não
nós o meio, pelo qual o ser é, ou seja, se presentifica, está na linguagem). Assim, a escuta autêntico
é todo âmbito em que, se cuidando e nos cuidando, a linguagem nos per-facciona,
nos re-une conosco na medida em que reunidos com tudo, a tudo; na medida em
que, em tudo, nos vemos integral e, como tal, em diálogo distinto, distintos.
Próprios.
A
representação atual da linguagem se encontra muito distante do que teriam
intuído os pensadores originários ao se depararem com o logos. Mas o que acontece quando chega à linguagem o ser dos entes,
os entes em seu ser, quando a diferença de ambos chega à linguagem como
diferença? Para Heidegger, levar à linguagem é abrigar o ser na essência da
linguagem. Por tudo isso, o dizer não é uma manifestação fonética de um
conteúdo, mas sim fazer aparecer. Eclodir. Diz Gadamer: “o que há de
propriamente misterioso na linguagem é o fato de ela deixar ver, ser tocado
por, de modo que isto se apresente”. Todavia, este fazer aparecer nada mais é
do que um desvelamento – tradução para a palavra grega aletheia: verdade. É neste sentido que fazer aparecer é o mesmo que
deixar ser, pois em todo desvelar já existe sempre um velamento, ou seja,
aquilo que se desencobre e que estava velado também é ao mesmo tempo preservado
como o que é abrigado na medida em que retorna à palavra. Por isso, o dizer é:
“ao mesmo tempo esse combate para conservar na presença o que em qualquer
instante pode se retirar na ausência – ausência que, no entanto, não é o nada
como nulidade, mas a reserva do ser”.
A
discussão tradicional sobre a linguagem ocorre no âmbito da metafísica (no modo
de pensar ocidental dominante), isto é, toma-se sempre a linguagem como um
objeto. Mas a linguagem não pode de modo algum ser considerada um objeto para o
pensamento caso este queira realmente alcançar o que é próprio da linguagem.
Tornou-se totalmente infrutífero para o pensamento falar sobre a linguagem.
Aliás, o homem só pode fazê-lo porque parte sempre do princípio de que a
linguagem é um instrumento de comunicação que ele possui.
No
intuito de romper com a concepção corrente, Heidegger substitui “O homem fala”
por “a linguagem fala”. Daí se tem que o pensamento é que está a serviço da
linguagem e não o contrário. Desse modo, o homem não pode ser o sujeito e nem o
senhor da linguagem. Para pensá-la, é preciso penetrar na fala da linguagem,
que homem ouve, e não na fala do homem, que ouve, sempre primeiramente, a
possibilidade de ouvir e dizer. Chega-se aqui, mais uma vez, á questão da
escuta, pois, se é a linguagem que fala, então homem só pode falar á medida que
escuta a linguagem tanto no sentido da audição quanto no sentido da obediência,
da pertença. Uma coisa é o conhecimento científico sobre a linguagem, outra é a
experiência que fazemos com ela: “Fazer uma experiência com algo, seja com uma
coisa, seja com um ser humano, com um deus, significa que este algo nos
atropela, nos vem ao encontro, chega até nós, nos avassala e transforma” (HEIDEGGER,
A caminho da linguagem). Fazer, aqui, não tem o sentido de produzir,
mas, sim, de sofrer e receber, ou seja, fazer uma experiência com a linguagem
significa deixar-se tocar propriamente pela linguagem. Na experiência com a
linguagem é a própria linguagem que vem à linguagem. Nesse momento, toda
vontade de conhecimento – de sistematização, de conceituação, de objetivação e,
logo, de afastamento do que não pode esta fora, nem perto, mas ser o
acontecimento propriamente vivido – deve ser abandonada. Enfim, a experiência
da linguagem quer, aí, sempre dizer: entrega. A experiência, como acolhimento,
não é conhecimento, não é fazer a coisa, uma coisa, um corpo à representação,
ao cálculo, ao conceito; ter ou ser uma experiência é submeter-se ao que é. Mas,
segundo Zarader, se submeter-se a vontade do conhecimento dá lugar ao cuidado
de uma experiência, então a própria noção de essência se esvai ou pelo menos
exige ser repensada numa perspectiva outra”. Como já foi dito anteriormente,
não estamos no âmbito do conhecimento de um determinado objeto, mas, sim, no
âmbito de uma experiência, portanto, só concebemos aquilo que a linguagem é
quando penetramos no que o sinal de dois pontos entreabre – “A essência da
linguagem: a linguagem da essência”. A essência, aí, sendo o ser – sendo o ser sendo, isto é, deixando ser, vindo ser,
isto é, já não mais o que era e é, ou ainda não sido, ainda não, nada,
abertura, aparece como o sujeito da linguagem. Não mais o homem. É como
linguagem, que a essência se humaniza.
A palavra essência não significa mais o que uma coisa é, mas o vigor daquilo
que nos concerne. Quer dizer: ao invés de tentar em vão chegar à linguagem
falando sobre ela, trata-se, sobretudo, de compreender que só é possível falar a partir da linguagem; só é possível ser
humano a partir da linguagem, pois já
nos encontramos desde sempre na linguagem, mais do que em nenhum outro lugar.
Poderíamos dizer: pois já nos encontramos desde sempre no ser, sendo, nunca
fora dele. Mas o ser se diz, se revela, o ser é: na ou como linguagem. A
linguagem que, mais do que o dito, é a força do dizer, também diz: silêncio. O
ser que não é se diz no que, na linguagem, também não é, deixa de ser, vem a
ser silêncio.
O
caminho, então, que o homem precisa percorrer para pensar a linguagem não pode
justamente conduzir senão para onde já estamos. Ser, linguagem e origem – nada
disso está em outro lugar e, no entanto, a única tarefa do pensar é tentar
chegar lá, quer dizer, aqui. Ao que nos é próprio.
É
óbvio que pensamos que a poesia é apenas uma modalidade particular da
linguagem. Que a dança é uma modalidade particular da linguagem. Que a música é
uma modalidade particular da linguagem – como se esta fosse instrumento, meio,
para trabalhar as palavras, o corpo, o som, para dar forma às matérias. Na
verdade, é o poético – como o deixar ser, o eclodir, a revelação propriamente,
é o que torna possível a linguagem. Ou seja: é na dança que linguagem é
linguagem. É na música que linguagem é linguagem. É no poema que linguagem é
linguagem. Que o ser se mostra concretamente, porquanto tudo isso é o fenômeno,
a experiência da criação.
O
pensamento de Heidegger constitui, neste sentido, uma ruptura radical com a
estética, na medida em que põe a obra e não mais o sujeito, seja ele receptivo
ou criativo, no centro da gravidade da arte. Para ele, o artista está na origem
da obra, mas a obra está na origem do artista. Ambos – artista e obra estão na
origem do que ganhou e ganha origem, do que doa ser, poiesis. Artista e obra
são o que são porque e quando e enquanto na arte, no caminho de desencobrimento
dessa doação. Por isso, a arte, sempre pensada, no entre obra e humanao de modo
que nenhum dos dois dados, objetivados; de modo que sem objetos, sem sujeitos,
a arte não se pense mais a partir dos entes, mas a partir do ser. Do que vem
ser no encontro, com o encontro e só como o encontro – o diálogo: a escuta e o
dizer. O homem diz a obra ao ouvir, ao ser chamado a uma arte. O homem ouve a
obra ao dizer, por deixar que se diga a arte nela, nele.
Desse modo, e para
terminar, a essência da linguagem não pode ser nada de linguístico. A essência
da palavra, do dizer, do nomear não pode ser nada linguístico. Heidegger chama
a linguagem de “casa do ser”, pretendendo dizer a essência da linguagem sem
fornecer um conceito, pois, para o filósofo, não é possível definir a linguagem
com um conceito. Mas isso não significa que não se possa pensá-la. Heidegger
não tem em mente na formulação “casa do ser” o ser dos entes representado
metafisicamente, a essa altura ele se refere ao vigor do ser, precisamente à dobra
entre ser e ente. A formulação “casa do ser” não pode ser, então, uma fórmula
(essa casa não pode ser uma fôrma, algo pronto, algo delimitado, construído). A
casa é o lugar onde é possível habitar. A casa é uma morada onde nos demoramos.
A casa é local de reunião de homem e ser, onde estes se encontram. Esta casa
não é nada mais do que a linguagem. E a linguagem nada mais é, quando e como
casa, o corpo. O corpo quando e como o ser (se) acionando. Por isso, para
Heidegger, há uma grande diferença entre a palavra que é aceno (corpo!) e a
palavra que é apenas signo (o que aponta para o corpo, sem sê-lo). Do mesmo
modo, uma grande diferença entre o corpo que é palavra (dizer! Sentido!) e o
corpo que é apenas signo (significante, superfície, de um significado, de um
fundo, de uma ideia, de um conceito, necessariamente linguístico).
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